Argentina goleia Brasil em manifestações de clubes contra golpe militar

Argentina goleia Brasil em manifestações de clubes contra golpe militar
No último 24 de março, todos os 26 clubes da primeira divisão nacional se posicionaram contra o golpe de 1976, quando começou a ditadura no país

Apenas uma semana separa os aniversários dos mais recentes golpes militares de Argentina e Brasil. Ainda que compartilhem a proximidade da data e uma fronteira física que os une territorialmente, a diferença na forma de lidar com a memória do período escancara uma distância considerável entre os dois países.

Reflexo da sociedade em que está inserido, o futebol age de acordo com o ambiente à sua volta.

No último 24 de março, dia em que os argentinos recordaram o golpe de 1976, todos os 26 clubes da primeira divisão nacional se posicionaram sobre o tema nas redes sociais com a hashtag #NuncaMás. Alguns deles se uniram à campanha “Plantamos Memória”, em que torcedores, sócios e dirigentes de diferentes instituições esportivas plantaram árvores em homenagem aos mortos e desaparecidos.

Neste 31 de março, completados 57 anos de instauração da ditadura militar no Brasil, apenas 7 clubes brasileiros da elite se manifestaram com relação à data histórica.

Atlético-MG, Bahia, Corinthians, Fluminense, Fortaleza e Internacional se posicionaram com mensagens mais firmes em defesa da democracia.

“Ditadura nunca mais”, publicou o Fluminense no Twitter, mesma frase utilizada pelo Fortaleza e pelo Atlético-MG, que postou uma foto do ídolo Reinaldo com o punho erguido. Os baianos subiram a hashtag #NuncaMais acompanhada de um vídeo com ações afirmativas do clube, e o time do Parque São Jorge, com uma foto do time da Democracia Corintiana, usou a frase “Nossa História é a nossa opinião”.

O Flamengo foi outro da elite a se manifestar, mas discretamente, apenas com a imagem da hashtag #DemocraciaSempre em um fundo rubro-negro.

Ao considerar também a segunda divisão, o placar da goleada entre Argentina e Brasil fica ainda mais dilatado. Das 35 agremiações que compõem a segundona argentina, 29 se manifestaram nas redes sociais. No Brasil, dos 20 clubes participantes da Série B, somente 5 fizeram menção ao golpe de 1964.




Do segundo escalão nacional, Confiança, Náutico, Ponte Preta, Remo e Vasco abordaram o tema. Os cariocas recordaram a data do golpe com a música “O Bêbado e a Equilibrista”, de autoria do vascaíno Aldir Blanc, que morreu em 2020 vítima do novo coronavírus.

Entre jogadores brasileiros, destaca-se a manifestação de Igor Julião, lateral direito do Fluminense, que publicou no Twitter frase célebre de Ulysses Guimarães: “Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo.”

A sociedade argentina já carrega uma tradição longeva de movimentos de direitos humanos que reivindicam reparações e justiça pelos horrores praticados por militares.

Quem deu início a essa militância foram as Mães da Praça de Maio, ainda na década de 1970, com a denúncia incansável da desaparição de seus filhos durante a ditadura, iniciativa que originou também o grupo das Avós da Praça de Maio, que passaram a buscar seus netos.

O futebol local, que celebrou em pleno regime o título do Mundial disputado no país, em 1978, levou algum tempo para incorporar ações e assumir uma posição em prol da memória. Clubes ainda estão amadurecendo a sua participação nesse processo, mas dão passos importantes para a consolidação de sua contribuição ao debate.

No aniversário de 20 anos do golpe, em 24 de março de 1996, a AFA (Associação do Futebol Argentino) determinou que todos os jogos da primeira divisão realizados no dia deveriam ter um minuto de silêncio antes de a bola rolar em lembrança às vítimas do terrorismo de Estado.




A determinação foi dada pela entidade um ano depois que Adolfo Scilingo, ex-oficial da Marinha, tornou pública a realização dos chamados voos da morte, nos quais presos políticos detidos pelos militares eram dopados e arremessados dos aviões no oceano Atlântico e no Rio da Prata -Scilingo, inclusive, reconheceu sua própria participação nos crimes.

Apenas uma partida naquele dia não teve o minuto de silêncio respeitado: Racing 2 x 2 Belgrano, disputado em Córdoba. Sargento do Exército, o árbitro Daniel Giménez se negou a atender o pedido da AFA e deu início ao jogo, para imediatamente ganhar vaias das duas torcidas.

Recentemente, os clubes e seus dirigentes abraçaram com maior força o apoio aos movimentos de direitos humanos, reconhecendo seu papel como importantes agentes sociais. Um marco desse reconhecimento foi uma iniciativa do Banfield, em 2019.

O clube da região metropolitana de Buenos Aires restituiu simbolicamente a condição de sócios a 11 torcedores desaparecidos na ditadura. Foi a primeira instituição do futebol nacional a realizar tal ato reparatório.

Agora em 2021, outros clubes se uniram a essa corrente, incluindo equipes com numerosas torcidas, como Boca Juniors, River Plate, Independiente e Racing.

“Há uma década, esse fato de os clubes se posicionarem em um 24 de março não aconteceria. Uma explicação potente é o apoliticismo esportivo, essa teoria de que esporte e política não devem se mesclar. Durante muito tempo, esse discurso foi muito dominante no mundo dos esportes e do futebol”, diz o sociólogo Julián Scher, autor do livro “Desaparecidos de Racing”, ao jornal Folha de S.Paulo.

“Hoje há agrupações de torcedores, de sócios, que impulsionaram esses atos reparatórios e essas homenagens. Os clubes também foram vítimas do genocídio, porque os clubes são das pessoas. Os donos dos clubes são a sua massa societária. Se há um sócio preso, desaparecido ou morto, o plano sistemático de extermínio afetou também o futebol.”

Em seu livro, Scher conta a história de Alberto Krug, torcedor do Racing e membro dos Montoneros (a guerrilha da esquerda peronista), sequestrado em 2 de dezembro de 1976.




Sua mãe, Rosa, continuou pagando ao clube as mensalidades do filho até 1980, com a certeza de que ele, se aparecesse com vida, voltaria a marcar presença na arquibancada do Cilindro de Avellaneda. Alberto nunca voltou. Foi torturado na ESMA (Escola Superior de Mecânica da Armada) e arremessado de um avião nas águas do Rio da Prata.

No último dia 24, o Racing anunciou, com a presença de seu irmão, Carlos Krug, a restituição da condição de sócio a Alberto.

A reação das instituições argentinas respeita uma história de preservação da memória e luta por justiça, marcada pelos movimentos sociais e também pela histórica condenação aos líderes da junta militar, em 1985, no governo de Raúl Alfonsín.

Em 2017, quando a Suprema Corte utilizou um recurso legal revogado para aliviar a pena dos militares presos com o chamado “dois por um”, em que cada dia passado em prisão preventiva valeria por dois, houve intensa manifestação popular contra a medida.

O Senado argentino, por unanimidade, aprovou uma lei que impedia a aplicação do “dois por um” para crimes de lesa-humanidade. “A sociedade argentina rejeita qualquer pacto de impunidade”, disse na época a então deputada Victoria Donda, filha de desaparecidos, nascida em um centro de detenção e criada por um repressor detido (Adolfo Donda) e que poderia ter se beneficiado da medida para aliviar sua condenação.

No Brasil, o 31 de março e o período da ditadura que governou o país de 1964 a 1985 são celebrados por setores do alto escalão do poder, principalmente na figura do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

No último dia 18, a Justiça autorizou o governo a manter no ar uma nota que celebrava o golpe militar como “marco da democracia brasileira”. O texto havia sido publicado no dia 31 de março de 2020 no site do Ministério da Defesa.

O novo ministro da Defesa, Walter Souza Braga Netto, afirmou que o golpe de 1964 “é parte da trajetória histórica do Brasil” e “assim devem ser compreendidos e celebrados os acontecimentos daquele 31 de março”.

A maioria dos grandes clubes de futebol do país, amparados na simpatia que o poder e parte da população (incluindo seus torcedores) têm pela data, se mostram confortáveis em manter o silêncio.

“Aqui na Argentina, quem reivindica a ditadura é a minoria da minoria. E o futebol não pode se descontextualizar da sociedade. Por certa condição de sentido do nosso país, aos dirigentes lhes traz mais problemas negar essas iniciativas do que apoiá-las”, completa Julián Scher.

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